Texto por Colaborador: A. Rother 19/10/2026 - 02:00

Pré-candidato à presidência do Internacional, Leonardo Aquino defendeu uma reformulação no comando do departamento de futebol, maior aproveitamento dos jogadores formados na base e mudanças na política de contratações como caminhos para recuperar a competitividade e a saúde financeira do clube. Em entrevista à Rádio Inter de Todos, em parceria com Beira News e Colorados e Coloradas, no sábado, o conselheiro também apresentou propostas para a formação de atletas, o futebol feminino, a comunicação com os torcedores e a possibilidade de transformar o Inter em uma SAF.

Ao explicar o que pretende fazer de diferente em relação à atual administração, Aquino afirmou que as mudanças precisam atingir a estrutura responsável pelo planejamento esportivo e pelas contratações. Segundo ele, substituir o presidente sem alterar a forma de trabalho do departamento de futebol não seria suficiente para modificar os resultados do clube.

“Se você muda o presidente, mas não muda os profissionais, os resultados serão os mesmos. A não ser que o presidente passe por cima dos profissionais, mas aí não faz sentido ter os profissionais”, argumentou.

O candidato não defendeu a substituição de todos os funcionários, mas considerou necessária uma mudança no comando estratégico do setor. Sua proposta prevê a criação de uma diretoria de inteligência esportiva, responsável por organizar o mapeamento do mercado, aprimorar a análise de jogadores e coordenar o trabalho de observação técnica.

Aquino também criticou a permanência de profissionais responsáveis pelo mercado de contratações ao longo de diferentes administrações. Na avaliação dele, o Inter acumulou negociações pouco rentáveis e precisa deixar de gastar valores elevados em atletas que não entregam o retorno esperado dentro de campo ou em futuras vendas.

“O que eu vejo é o seguinte: sem mudanças nos profissionais, mantendo as mesmas práticas, os mesmos olheiros técnicos, que na verdade são militantes, e não profissionais do ramo, vamos continuar tendo os mesmos resultados”, declarou.

Para o pré-candidato, o departamento de futebol deve trabalhar com uma lógica que permita valorizar jogadores e gerar receitas. Ele citou contratações de atletas jovens, com potencial de desenvolvimento e revenda, como modelo a ser priorizado, em vez de operações que aumentem o endividamento sem oferecer retorno esportivo ou financeiro.

“Não adianta continuar fazendo janelas deficitárias, em que só criamos dívida, criamos dívida e criamos dívida. Não adianta ter um investidor para contratar mal, contratar jogadores errados e continuar aumentando a dívida do clube. Isso não vai nos levar a lugar nenhum”, afirmou.

Aquino também abordou a escolha do treinador para uma eventual gestão. Para ele, a nacionalidade do profissional não deve ser o principal critério. O mais importante é encontrar alguém disposto a trabalhar de acordo com a realidade financeira do Inter e a oferecer oportunidades aos jogadores das categorias de base.

“Para ser treinador do Inter na nossa gestão, vai ter que aceitar trabalhar com jovens jogadores. Se não aceitar, não vamos poder contar com esse profissional, porque é a realidade financeira e esportiva do clube que exige isso neste momento”, explicou.

O candidato defendeu ainda um modelo de jogo baseado em intensidade e preparação física, argumentando que o clube precisa adequar suas ambições às condições econômicas disponíveis. Na visão dele, o Inter não pode montar seu planejamento como se tivesse os mesmos recursos de Flamengo e Palmeiras, mas possui orçamento suficiente para apresentar resultados superiores aos atuais.

“Com o orçamento do Inter, não deveríamos estar em 17º. Se é orçamento contra orçamento, deveríamos estar ali no meio. Se você é eficaz e competente, deveria estar disputando o top seis ou sete, e não onde o Internacional está agora”, afirmou.

A possibilidade de disputar a Série B em 2027 também foi abordada. Embora tenha demonstrado confiança na permanência colorada na elite, Aquino afirmou que uma eventual queda exigiria uma redução significativa dos gastos com futebol, principalmente na folha salarial.

Ele lembrou que o Inter disputou a Série B em 2017 com um elenco de alto custo, mas terminou a competição em segundo lugar e não conseguiu sequer conquistar o Campeonato Gaúcho diante do Novo Hamburgo.

“Desta vez, não será possível gastar como na Série A estando na Série B. Não será possível. É matemática”, declarou.

Aquino afirmou que o planejamento de mercado já considera cenários para as duas divisões, permitindo que o clube não seja surpreendido caso o rebaixamento se confirme. Se permanecer na Série A, a proposta também será de controlar os gastos e buscar novas fontes de arrecadação.

Entre as alternativas financeiras apresentadas está a criação de um fundo de investimento que ofereça recursos ao Internacional com juros menores do que os praticados pelos bancos e regras de governança para controlar a aplicação do dinheiro. O candidato ressaltou que esse capital não poderia servir simplesmente para financiar contratações sem retorno.

Outra possibilidade em estudo envolveria uma operação com uma instituição financeira, na qual recursos depositados serviriam de garantia para a liberação de crédito ao clube, com utilização destinada ao pagamento de obrigações. Aquino afirmou que já existem conversas com instituições para avaliar esse modelo.

O pré-candidato também pretende ampliar as receitas provenientes dos próprios ativos e canais do Internacional. Entre as ideias estão colocar a TV Inter no ar por seis a oito horas diárias, ampliar sua capacidade comercial e criar uma rede internacional para que jovens atletas tenham experiências em clubes de menor porte na Europa.

Nesse último projeto, os jogadores poderiam ganhar experiência cultural, tática e esportiva, enquanto os clubes envolvidos receberiam uma remuneração pela participação no desenvolvimento dos atletas caso ocorresse uma futura venda, conforme explicou Aquino.

A reformulação da base é outro dos principais pontos de seu programa. O candidato afirmou que gostaria de deixar como legado de uma eventual gestão o centro de treinamento de Guaíba concluído, com integração entre as categorias de formação e o elenco profissional.

Para Aquino, a localização do futuro complexo não representa um problema. Ele argumentou que a estrutura permitiria oferecer instalações de alto nível e deixar um patrimônio para o clube nas próximas décadas. Enquanto o projeto não se concretiza, defendeu que jogadores do sub-17 e do sub-20 realizem treinamentos semanais com o elenco principal.

Na distribuição de recursos, o candidato prometeu destinar 10% do orçamento à formação de atletas. Segundo ele, o percentual mínimo previsto no estatuto é de 4%, mas sua proposta de elevar o índice para 10% não foi aprovada durante uma discussão de reforma estatutária.

“Entendemos que esse é o caminho que o clube precisa seguir para voltar a ser competitivo e para recuperar sua saúde financeira”, afirmou.

O futebol feminino também teria espaço nesse planejamento. Aquino defendeu que a modalidade receba tratamento equivalente ao masculino em organização, estrutura técnica e desenvolvimento de atletas. Ele destacou a possibilidade de formar jogadoras e gerar receitas futuras com negociações, além de cumprir uma função social.

O trabalho de formação, segundo o candidato, precisa começar ainda na identificação dos talentos. Por isso, ele também prometeu reestruturar o setor de observação técnica, com profissionais atuando não apenas no interior do Rio Grande do Sul, mas também em regiões do interior de São Paulo e de outros estados brasileiros.

A ampliação das escolinhas oficiais do Internacional é outra medida prevista. Aquino considerou insuficiente a presença atual do clube em Porto Alegre e na região metropolitana e afirmou que pretende abrir novas unidades para aproximar crianças e jovens do Colorado.

A relação com os torcedores também apareceu entre as prioridades. O candidato criticou o modelo de comunicação baseado principalmente na publicação de notas no site oficial e defendeu um contato cotidiano e mais individualizado com os associados.

Uma das propostas é criar um sistema de pontuação para reconhecer diferentes formas de participação dos sócios, considerando tanto quem comparece aos jogos quanto quem informa previamente que não poderá ir ao estádio. Os pontos poderiam ser trocados por produtos, benefícios na loja e vantagens relacionadas à TV Inter.

A ideia, segundo Aquino, é levar em consideração as diferentes realidades dos associados, especialmente daqueles que moram longe de Porto Alegre e enfrentam dificuldades financeiras e logísticas para acompanhar as partidas no Beira-Rio.

O candidato também propôs ampliar o relacionamento com os consulados colorados, criar iniciativas para levar torcedores do interior ao estádio e desenvolver o projeto Inter nos Bairros, aproximando o clube de comunidades de menor renda.

Como meta, Aquino estabeleceu a intenção de alcançar 250 mil sócios até 2029, quando o Internacional completará 120 anos. Ele defendeu que a data seja marcada por um grande evento de celebração da história colorada.

Sobre a possibilidade de transformar o Inter em uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF), Aquino afirmou que não pretende tomar uma decisão unilateral. Para ele, qualquer proposta considerada realmente vantajosa precisaria ser debatida com o Conselho Deliberativo e os associados.

O candidato demonstrou preocupação com modelos nos quais investidores assumem o controle dos clubes e depois deixam de aportar recursos, citando o caso do Valencia, da Espanha, como exemplo dos riscos envolvidos.

“Isso não pode ser um assunto tratado com emoção. Acho que o Inter tem capacidade de se recuperar. O Inter está passando pelo que está passando não porque é uma associação, mas porque foi mal administrado”, declarou.

Ao final da entrevista, Aquino reforçou que sua candidatura está baseada na necessidade de alterar a condução do futebol e a forma como o clube administra seus recursos.

“É preciso competência, uma visão nova e uma visão de mudança. É para quem quer mudar o departamento de futebol, quem quer mudar a política de futebol, quem não esteve lá e não tem os vícios das últimas gestões”, afirmou.

O pré-candidato defendeu que os associados comparem as propostas dos concorrentes antes de escolher quem comandará o Internacional no próximo mandato e reiterou que, em sua avaliação, a recuperação do clube depende de mudanças estruturais, responsabilidade financeira e maior aproveitamento dos talentos formados em casa.

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