Reprodução / GENenhuma outra regra desta Copa do Mundo tem gerado tanta reação nas arquibancadas quanto as pausas para hidratação. Introduzidas pela FIFA em todas as partidas do torneio na América do Norte, as interrupções voltaram a ser tema depois do jogo entre Inglaterra e Gana — e desta vez o contexto tornou a situação ainda mais difícil de justificar.
Com a partida já paralisada por volta dos 20 minutos devido a um choque de cabeças entre Reece James e Jordan Ayew, o árbitro Said Martinez ainda assim decretou uma pausa para hidratação aos 26 minutos. Os torcedores ingleses responderam com vaias. A cena ilustrou bem o principal argumento dos críticos da medida: a obrigatoriedade das pausas independentemente das condições climáticas — inclusive em estádios com ar condicionado, como o de Dallas. Nos intervalos, a emissora americana Fox aproveita para exibir comerciais, o que alimenta suspeitas sobre os reais interesses por trás da regra.
A FIFA nega qualquer motivação financeira. "Não há receita adicional para a FIFA, já que todos os acordos comerciais foram assinados com bastante antecedência. Portanto, não se trata de uma questão financeira para nós. É uma questão puramente esportiva", afirmou o presidente Gianni Infantino. A entidade sustenta que as pausas existem para nivelar as condições entre partidas disputadas em climas e horários diferentes: "Queremos garantir condições iguais para todos e é por isso que essas pausas são implementadas em todas as partidas", reforçou um porta-voz à Press Association.
Infantino ainda defendeu a lógica da uniformidade: "É muito difícil aceitar que um treinador possa ter a oportunidade de influenciar uma partida fazendo ajustes simplesmente porque está mais quente, enquanto em outra partida, onde a temperatura é um pouco mais baixa, o mesmo treinador não tenha a mesma oportunidade."
No banco de reservas, o tema racha os treinadores. Thomas Tuchel, o mais incisivo na crítica, já havia se manifestado antes do jogo contra Gana: "Acho que isso interrompe e muda a identidade de uma partida de futebol muito mais do que eu imaginava. Eu já tinha pausas para hidratação antes, quando estava muito, muito quente e eram necessárias, mas eram mais curtas. Isso praticamente divide a partida em quatro tempos."
Didier Deschamps e Carlo Ancelotti pensam diferente. O técnico da França vê nas pausas uma vantagem tática: "Você consegue ter os jogadores perto de você e isso te dá a oportunidade de ajustar algumas coisas em relação aos 22-23 minutos de jogo que acabaram de acontecer. Com as altas temperaturas, é importante poder dar essa oportunidade extra ao treinador principal. É algo positivo — isso é um fato, mas nos leva a dividir o jogo e, se você estiver em uma posição forte, depois dessa pausa, precisa voltar a jogar. Mas nos adaptamos a isso, inclusive já previmos essa situação em nossa preparação." Já Ancelotti resumiu em uma frase: "Você pode explicar um problema aos jogadores e fazer um ajuste tático que pode ser muito bom."
E se para alguns as pausas são longas demais, para a ciência elas podem ser curtas demais. Douglas Casa, diretor executivo do Instituto Korey Stringer, referência global em prevenção de mortes súbitas no esporte, recomenda intervalos de até seis minutos por tempo — bem acima do praticado atualmente na Copa.
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