Texto por Colaborador: A. Rother 14/07/2026 - 05:00

Recuperação judicial como ponto de partida para reorganizar as finanças, com a transformação em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) como etapa final: essas são as principais conclusões de um estudo da consultoria global Alvarez & Marsal (A&M), ao qual o Correio do Povo teve acesso com exclusividade. O material, produzido ao longo de cerca de quatro meses, traz um diagnóstico da saúde financeira do clube e um plano dividido em três fases, com metas até 2035.

Contratada no fim de 2025 por uma comissão especial do Conselho Deliberativo, a A&M submeteu o trabalho à análise de especialistas colorados, dirigentes e ex-dirigentes. O relatório deve ser apresentado aos conselheiros ainda neste mês, quando uma versão resumida será distribuída.

Na primeira fase, batizada de "Reestruturação e Austeridade" e prevista até o fim de 2027, a principal recomendação é que o Inter entre com pedido de recuperação judicial (RJ), mecanismo que permite renegociar dívidas preservando as atividades do clube. A consultoria também cita a adesão ao Regime Centralizado de Execuções (RCE) como alternativa, mas a considera mais arriscada, já que oferece menos segurança jurídica. Essa etapa também prevê uma reforma estatutária para profissionalizar a gestão, reduzindo o poder dos dirigentes eleitos e ampliando o Conselho de Gestão com dois membros independentes. Segundo a A&M, o clube precisará captar cerca de R$ 200 milhões adicionais até 2027 apenas para honrar minimamente seus compromissos.

A segunda fase, "Solução do Endividamento", ocorre entre 2028 e 2029, com foco em reduzir o passivo e ampliar receitas — inclusive por meio de operações com terrenos do clube em parceria com a Prefeitura de Porto Alegre. É nesse período que a consultoria recomenda iniciar os estudos para a transformação em SAF, embora sugira que a operação só se concretize na etapa seguinte.

Já a última fase, "Crescimento e Potencial", vai de 2030 a 2035. Nesse ponto, o clube já deve ter reorganizado suas finanças e ter mais poder de barganha para negociar a transformação em SAF, o que traria uma "aceleração do crescimento" e uma "injeção de capital para investimento em infraestrutura e no futebol" — recursos que permitiriam reforçar o elenco e avançar em projetos como o futuro centro de treinamentos em Guaíba.

O relatório ainda será debatido no Conselho Deliberativo. Mesmo com a eleição presidencial marcada para o fim do ano, as primeiras medidas — como a escolha entre recuperação judicial ou RCE — devem começar ainda na atual gestão.

O diagnóstico traz um cenário preocupante: mantido o modelo atual, o Inter não terá como honrar seus compromissos, com o endividamento, hoje próximo de R$ 1 bilhão, tendendo a crescer. Segundo o próprio documento, "estima-se que o clube alcance em dezembro de 2027 uma dívida de 1,2 bilhões (R$ 856 milhões vencidos)".

O relatório organiza os riscos em três horizontes. No curto prazo, os vencimentos pressionam o caixa, com receita insuficiente para cobrir os pagamentos. No médio prazo, a falta de receitas deve ampliar o passivo e gerar um "risco operacional estrutural", com possibilidade de execuções judiciais, punições esportivas e processos na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), da CBF. Já no longo prazo, o endividamento é classificado como "insustentável", com risco de o clube perder credibilidade no mercado e ter dificuldade para obter novos financiamentos.

Atualmente, o Inter soma R$ 226 milhões em dívidas já vencidas, e outros R$ 585 milhões vencem entre 2026 e 2027 — um cenário que, sem mudanças estruturais, tende a elevar ainda mais o risco de inadimplência.

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