Texto por Colaborador: A. Rother 24/10/2026 - 19:47

A vitória do Internacional por 3 a 0 sobre o Botafogo, no Beira-Rio, foi analisada em detalhes por Eduardo Baptista na entrevista coletiva após a partida. O treinador explicou as escolhas táticas que contribuíram para o resultado, revelou bastidores da escalação do goleiro Kauan Jesus, comentou o respaldo recebido da direção e destacou a mudança de comportamento do elenco. Mesmo com a atuação convincente, o comandante reforçou que o Colorado ainda precisa manter os pés no chão na luta para se afastar da zona de rebaixamento.

Eduardo começou a coletiva ressaltando a importância da torcida e da postura demonstrada pelos jogadores depois das incertezas e da derrota na rodada anterior. Para ele, a reação precisava partir de dentro de campo, com a recuperação de características que considera fundamentais no futebol gaúcho: entrega, intensidade e disposição para os duelos.

“A mudança ela vem de dentro para fora né. A gente tinha que mostrar para o torcedor o espírito, a busca, a garra. Às vezes tecnicamente as coisas não vão funcionar, mas deixar de duelar jamais, deixar de lutar jamais”, afirmou.

O treinador também declarou sua admiração pelo estilo de jogo que acredita ser esperado pelos torcedores colorados. “Eu sou um admirador do futebol gaúcho, e é esse o futebol que o torcedor quer ver. Mesmo que talvez um dia tecnicamente as coisas não funcionem, ele quer ver isso.”

Na avaliação do comandante, a recuperação do Internacional não pode ser atribuída a uma única pessoa. Eduardo fez questão de dividir os méritos com a direção, citando Fabinho e Abel como figuras importantes pelo apoio recebido durante o período de dificuldades.

“É um trabalho a muitas mãos, não é o Eduardo que fez alguma coisa. Se não fosse o respaldo do Fabinho, do Abel, de passar a confiança, de estar junto... São pessoas importantes nesse momento que deram respaldo, confiaram e abraçaram os atletas e as escolhas”, explicou.

Um dos pontos abordados na entrevista foi a escolha de Kauan Jesus para começar a partida contra o Botafogo. Questionado sobre a decisão de apostar no jovem goleiro em vez de nomes mais experientes, como Anthony e Mateus Cunha, expulso contra o Mirassol, Eduardo revelou que começou a definir a escalação logo após a derrota anterior.

“A minha escolha pelo Kauan foi no jogo do Mirassol quando acabou o jogo, pela coragem, pela dedicação, pela maneira como ele se portou de uma forma madura. Eu conversei com o Maia e já sinalizei: 'O Anthony volta se tiver 100% das suas condições. 90% vai jogar o Kauan por tudo que ele mostrou'.”

O treinador também relacionou a escolha do goleiro ao processo de reconstrução do clube. “E o Kauan representa essa nossa reconstrução do Internacional: é coragem, é entrega, é trabalho.”

Na parte tática, Eduardo detalhou como preparou o time para neutralizar as principais características ofensivas do Botafogo. O técnico explicou que a equipe carioca procurava criar situações de perigo com as infiltrações de Danilo e a movimentação de Montouro, além de manter dois pontas abertos para explorar os duelos individuais pelos lados do campo.

“O Botafogo ofensivamente é uma equipe que tenta envolver com a infiltração do Danilo e a flutuação do Montouro. Eles dificultariam bastante a gente porque deixariam dois pontas abertos ali para o um contra um [...] A ideia defensivamente era neutralizar essas flutuação dos dois médios deles”, detalhou.

Para impedir que o adversário encontrasse espaços entre as linhas, o Internacional apostou em movimentações coordenadas entre os defensores e os volantes. Eduardo explicou que Juninho e Bruno Gomes alternavam funções durante a partida, participando tanto da linha defensiva quanto da proteção à frente da zaga.

“Tanto o Juninho como o Bruno Gomes tinham papéis importantes. Por vezes ali o Bruno era um volante dentro da nossa linha, por vezes o Juninho também se tornava um volante flutuando ali. E assim a gente conseguiu tirar as principais bolas entre linhas deles.”

O comandante também elogiou a atuação de Maripán, destacando a segurança demonstrada pelo defensor na organização do setor. “O Maripan fez uma boa partida hoje, bastante seguro, controlou o setor, controlou o espaço.”

Ofensivamente, a estratégia colorada passou pela exploração dos lados do campo, especialmente com Brian Aguirre, chamado de Café pelo treinador. A intenção era pressionar os jogadores responsáveis pela marcação nessas regiões e, com isso, criar mais espaço para os meio-campistas atuarem por dentro.

“Trabalhamos bastante principalmente com o Café, com o Aguirre, para que a gente fosse incisivo ali. Eu falei para o Café: 'Se a gente não jogar em cima dele, nós vamos ter que correr atrás dele'. [...] A partir do momento que essa bola começou a explorar ali, a gente prendeu tanto o Mateus como o Vitinho”, contou.

Segundo Eduardo, a movimentação também favoreceu os jogadores que atuavam no centro do campo. “Tendo que baixar com os nossos alas, sobrou espaço no meio pro Alan, sobrou espaço no meio pro Ronaldo [...] e pro próprio Thiago Maia.”

O treinador ainda explicou a importância dos alas na estrutura ofensiva da equipe. Ao comentar o primeiro gol do Inter, marcado por Mateus Bahia após uma jogada em que o ala direito cruzou para o ala esquerdo concluir, Eduardo apontou o lance como uma representação do modelo que pretende consolidar.

“O primeiro gol nosso é uma essência do que é esse sistema: é o ala direito cruzando para o ala esquerdo. Os alas na fase defensiva são alas, na fase ofensiva são dois pontas. Isso me dá a liberdade de ter mais jogadores por dentro.”

A boa atuação defensiva também abriu uma disputa por posições para o próximo compromisso, contra o Fluminense. Gabriel Mercado estará ausente por suspensão decorrente do terceiro cartão amarelo, mas o desempenho de Juninho, Maripán e dos demais defensores deu ao treinador mais alternativas para montar a equipe.

“Problema bom, né? Hoje nós temos grandes zagueiros. A gente busca potencializar todos [...] A partir de segunda-feira a gente vai estudar melhor o Fluminense e fazer a melhor escolha. O importante é que eu tenho o Juninho, o Maripan, o retorno do Mercado e o próprio Vitão”, afirmou.

A situação física de Kauan Jesus também foi abordada. Depois de voltar a atuar após um período sem jogar, o goleiro terminou a partida com cãibras nas duas pernas. Apesar do desgaste, Eduardo demonstrou confiança na possibilidade de mantê-lo entre os titulares, condicionando a definição às avaliações médicas e físicas.

“Eu acho que eu posso cravar a vocês ali por tudo que ele fez. [...] Eu acho que ele saiu com cãibra nas duas pernas, não jogava há um bom tempo. Passa por uma avaliação médica e física, e a gente provavelmente deve ter o retorno também aos trabalhos integrais do Anthony.”

Mesmo com a vitória por 3 a 0, o treinador aproveitou a coletiva para cobrar mais atenção da arbitragem. Eduardo citou o gol sofrido contra o Mirassol, que considerou irregular por impedimento e pela presença de um jogador que atrapalhava a visão de Kauan Jesus, além de reclamar de um lance contra o Botafogo em que o árbitro interrompeu a jogada antes de o Inter concluir o que seria o terceiro gol.

“Nós precisamos de mais concentração. Eu vejo em Mirassol, o gol estava impedido, tinha um jogador claramente atrapalhando a visão do Kauan Jesus. E hoje [...] a gente constrói o terceiro gol e um erro... ele apita falta antes. Seria 3 a 0 ali e nos daria uma tranquilidade maior. A arbitragem também tem que ter atenção”, declarou.

Ao falar sobre as mudanças observadas no time em menos de um mês de trabalho no centro de treinamento, Eduardo apontou a evolução do comportamento coletivo como um dos principais avanços. O objetivo, segundo ele, é fazer com que o adversário tenha dificuldades para escapar da marcação, sem abrir mão da intensidade e do equilíbrio necessário para pressionar ou recuar quando a equipe precisar se reorganizar.

“Primeiro, comportamento, né? A gente aumentar o nível. O adversário ter que se movimentar muito para escapar da nossa marcação. A gente incomodar, não ser desleal de maneira nenhuma, mas um time viril, ser intenso. E ter o equilíbrio entre a hora de pressionar o goleiro e a hora de baixar um pouquinho para reorganizar e respirar.”

Outro exemplo de compromisso coletivo citado pelo técnico foi a atitude do atacante Alerrandro. Mesmo atravessando um período sem marcar gols, o jogador optou por servir um companheiro em melhor posição diante da meta. Eduardo utilizou o lance para reforçar a importância de colocar os interesses do Internacional acima das metas individuais.

“O Alerrandro tá há algum tempo sem fazer gol, se doa o tempo todo. Ele teve na cara do gol, ele serviu o companheiro dele. É essa a alma! É ele ver primeiro a camisa do Inter e depois olhar para si. [...] Ele viu o companheiro melhor posicionado e viu primeiro a equipe e não o próprio ego.”

A utilização de um centroavante fixo também fez parte das explicações sobre o funcionamento do sistema ofensivo. Eduardo afirmou que considera necessária a presença de um camisa 9 quando a equipe atua com dois pontas, pois entende que é preciso ocupar a área adversária. O treinador ainda ressaltou que prefere demonstrar suas ideias por meio do trabalho e das ações em campo, em vez de depender apenas de conversas.

“Se eu vou ter dois pontas, eu tenho que ter um nove. Isso é uma convicção minha [...] Não adianta só conversar, eu não sou encantador de serpente, não tenho uma falatória bonita. Eu trabalho e falo: 'É isso que eu quero, é isso que nós vamos fazer e vamos para o campo'.”

Apesar da atuação convincente diante do Botafogo, Eduardo reforçou que o resultado não resolve a situação do Internacional no campeonato. O treinador, no entanto, disse que pretendia aproveitar a vitória antes de voltar a concentrar suas atenções na sequência da temporada. Em tom descontraído, revelou também como planejava comemorar o resultado em casa, ao lado da família.

“Importante saber que nós não resolvemos o nosso problema ainda [...] Hoje é dia de saborear. Até comentei com o meu presidente: não quero nem saber dos outros resultados, ganhei o jogo, vou para casa sentar com a minha família e tomar a minha cervejinha ali, que não sou de beber muito.”

Eduardo também comentou a adaptação de Bernabei a uma função mais adiantada, explicando que a ausência de Vitinho e as características do adversário influenciaram a decisão. O técnico reconheceu que suas próprias convicções podem mudar de acordo com as necessidades táticas de cada confronto.

“A gente muda de opinião também, né? Estrategicamente hoje, como eles tinham um lado direito muito forte, essa dobra era importante porque eu tinha que neutralizar ali, mas ao mesmo tempo ter uma saída rápida para frente.”

Para encerrar a entrevista, o comandante voltou a elogiar Brian Aguirre e destacou a importância de Mateus Bahia ter marcado um gol. Na avaliação de Eduardo, Aguirre reúne força física e disposição para cumprir as exigências defensivas da função, enquanto o gol de Mateus Bahia pode dar ao jogador mais confiança para avançar e participar das jogadas ofensivas, sabendo que haverá cobertura atrás dele.

“Ele tem as características do jogador para jogar nessa função, porque tem que ter força e pulmão para poder marcar. [...] É importante o Mateus Bahia fazer o gol hoje para ele saber que pode pisar na área e que vai ter gente atrás para conter essas subidas. O Aguirre é um menino espetacular, corajoso, se dedica demais.”

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