Ricardo Duarte / InternacionalCom o retorno de público aos estádios no futebol brasileiro, o fator casa voltou a ser ainda mais importante para os clubes conquistarem as vitórias diante da presença do torcedor. Porém, apesar de toda festa promovida pelas torcidas e apoio ao time dentro de campo, os jogadores tiveram que se readaptar à pressão vinda das arquibancadas.
Na última quarta-feira (20), a torcida do Santa Cruz invadiu o gramado da Arena Pernambuco, após a eliminação do time na fase preliminar da Copa do Nordeste, diante do Floresta, nos pênaltis. Foi a primeira invasão de torcedores em um estádio de futebol, desde a volta do público no Brasil.
Após 18 meses, o reencontro de alguns atletas com os torcedores não foi tão positivo como o esperado. O atacante Luiz Adriano, durante o aquecimento da partida contra o RB Bragantino, pelo Campeonato Brasileiro, no primeiro jogo com público no Allianz Parque desde a pandemia de Covid-19, foi visto discutindo e disparando xingamentos aos torcedores. Esse episódio envolvendo o jogador do Palmeiras ilustra o outro lado da volta do público.
Pela Série B, o reencontro dos torcedores do Botafogo com o time, no estádio Nilton Santos, ficou marcado pela discussão entre a torcida e o técnico Enderson Moreira, que estavam num setor mais próximo do campo. Na mesma semana, a torcida do Fluminense também disparou vaias e ofensas a jogadores e diretoria, na derrota para o Fortaleza, no Maracanã.
A psicóloga esportiva, Nara Alciane, que trabalha com o elenco profissional do Fortaleza, entende que, com a pandemia, os atletas de todo o mundo precisaram se adaptar à ausência do seu maior incentivador: a torcida. “A forma de cada jogador lidar com isso é muito particular. Sabemos que o futebol é um esporte que envolve uma pressão gigantesca por resultados e esta pressão muitas vezes representada pela torcida é o combustível necessário para o êxito nas competições”.
Para Júnior Chávare, gerente de futebol do Bahia com experiência em trabalhos voltados à captação e formação de jogadores ao profissional em clubes como São Paulo, Grêmio e Atlético Mineiro, os jogadores mais jovens, que tiveram as primeiras oportunidades e apareceram profissionalmente neste contexto de estádios vazios, podem sentir mais o impacto de pressão da torcida.
“Quando o jogador da base tem a experiência no profissional, o principal impacto costuma ser esse primeiro contato com a torcida e, consequentemente, como ele lida com tudo isso. Com as arquibancadas vazias, o atleta recém-chegado ao time principal ainda não criou essa “casca grossa” para lidar com a pressão ou, até mesmo, se encantar com os estádios cheios, o que também influencia de maneira positiva no desempenho dos jogadores. A pandemia tirou este estímulo externo vindo da arquibancada por mais de um ano'', completa o dirigente.
Quando a fase não é boa, em alguns momentos a presença da torcida, em vez de ajudar, pode surtir o efeito contrário e trazer ainda mais cobrança e pressão para dentro de campo aos atletas. Entretanto, a pandemia mostrou que foi pior com os times mandantes e a explicação disso se deve a ausência de público.
Segundo um estudo feito pelas universidades de Leeds e Northumbria, que analisou 4.844 jogos em 11 países europeus, jogar partidas de futebol profissional em estádios vazios tem um efeito negativo no êxito dos times da casa. Os dados mostram que, com a torcida, as equipes somaram, em média, 0,39 pontos a mais como mandante. Por outro lado, com a ausência dos torcedores, a vantagem caiu quase pela metade, uma vez que os times conquistaram apenas 0,22 pontos a mais em casa do que fora.
No Campeonato Brasileiro, o retorno de público, para além do fator campo, teve um valor simbólico e histórico para alguns torcedores. No caso do Cuiabá, a torcida do Dourado viu pela primeira vez no estádio o seu time do coração disputar a elite do futebol brasileiro. Além disso, a população mato-grossense não via um time do estado como representante na Série A há mais de três décadas.
“Era um sonho de todo mato-grossense apaixonado por futebol poder assistir um clube do estado na primeira divisão. Ficamos muitos anos sem ter um time na Série A, o Cuiabá se orgulha muito por representar o nosso povo e a nossa região”, declarou Cristiano Dresch, vice-presidente do clube.
Para as equipes que estão na parte de baixo da tabela, o apoio dos torcedores é ainda mais fundamental para somar pontos e conquistar o objetivo de permanecer na primeira divisão. Para Walter Dal Zotto, presidente do Juventude, ter a torcida neste momento de definições na competição é muito importante.
“Independente do número de torcedores que seja liberado, em função dos protocolos, eu tenho certeza que eles farão a diferença apoiando e incentivando o nosso grupo de jogadores, como sempre fizeram'', afirmou o mandatário do clube gaúcho, que enfrenta Ceará e Bahia, no Alfredo Jaconi, nos próximos dois jogos do Brasileirão, e aposta no fator casa nesses confrontos diretos para saltar na tabela.
O retorno do público também representa um percentual de receita a mais para as agremiações. Porém, neste momento, para a maioria dos clubes, a realidade ainda é de mais gastos do que receitas com a venda dos ingressos. O Internacional é o único a ter lucro com público no Brasileirão. Após os jogos contra América-MG e a Chapecoense, no Beira-Rio, o Colorado arrecadou R $609.642,53 com bilhetes no total.
“Infelizmente ainda não recebemos o nosso torcedor com capacidade total, mas, com o ambiente seguro e respeitando os protocolos sanitários, notamos que o número de presentes vem aumentando e isso tem um impacto positivo em nossa arrecadação. Para nós, é muito importante contar com a presença da torcida para conseguirmos os resultados dentro de campo e para os cofres do clube”, afirmou Victor Grunberg, vice de administração do Inter.
Fonte: Bandsports
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