Texto por Colaborador: A. Rother 09/06/2026 - 00:30

O técnico Lisca virou notícia ao participar do quadro "Quem não é o jogador profissional?", do canal de Lucas Tylty, onde foi questionado sobre treinadores que marcaram sua trajetória no futebol. Entre os nomes que citou, o de Guto Ferreira ganhou destaque — não só pelo elogio, mas pela crítica contundente que veio junto.

Para Lisca, Guto é um estudioso do futebol, com capacidade acima da média para entender o jogo, mas que ao longo da carreira não recebeu as oportunidades que merecia. O diagnóstico foi direto: o futebol brasileiro ainda é marcado por preconceitos e rótulos que impedem uma avaliação justa dos profissionais. Os dois têm uma ligação antiga. Começaram juntos no São Paulo e depois se reencontraram no Internacional, clube ao qual ambos têm forte vínculo.

No Inter, Guto passou pelas categorias de base, venceu a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 1998 e depois chegou ao time profissional. Lisca também trilhou esse caminho: surgiu na base colorada e voltou ao clube como técnico do time principal em 2016. A convivência entre os dois forjou uma admiração que Lisca deixou clara na conversa.

Antes de falar sobre Guto, Lisca citou Antônio Lopes como o primeiro nome que o ajudou a crescer como treinador. Em seguida, foi a vez de Guto Ferreira, com quem conviveu nos primeiros anos de carreira. "O Guto é um cara que a gente começou junto, no São Paulo, depois no Inter. Pensa num cara para estudar futebol", disse Lisca.

A partir daí, o elogio ganhou um tom de defesa. Lisca foi além da admiração técnica e apontou que o colega poderia ter comandado clubes de maior investimento e visibilidade, mas foi barrado por preconceitos ligados à aparência. O apelido "Gordiola" — uma referência irônica ao técnico Pep Guardiola — foi o alvo da crítica. "O Guto só não teve um clube já top por muito preconceito, cara. Os negócios do gordo, Gordiola, não sei o quê. Futebol é muito preconceituoso, cara. Eu sou doido, ele é o Gordiola, é pouco, cara", afirmou Lisca.

A declaração tem peso porque vem de alguém que também viveu na pele o que significa carregar um rótulo. Lisca ficou conhecido pelo apelido "Doido" e teve sua imagem frequentemente associada ao estilo exaltado na beira do campo. Ao falar de Guto, deixou implícito que esses estereótipos muitas vezes ofuscam a avaliação real do trabalho de um treinador.

Guto Ferreira tem uma carreira marcada por acessos, resultados consistentes e passagens por clubes relevantes do futebol brasileiro. Além do Inter, comandou Bahia, Ceará, Sport, Chapecoense, Ponte Preta, Coritiba, Goiás, Remo e Vila Nova. No Colorado, foi peça importante na campanha de retorno à Série A em 2017, embora tenha deixado o clube antes do encerramento do campeonato.

Lisca ainda falou sobre o que aprendeu com o colega em campo. Segundo ele, Guto o ajudou a enxergar o jogo de forma mais profunda, a interpretar partidas e a estudar comportamentos dentro de campo — algo que carregou para sua própria trajetória como treinador. "A gente estudou muito o jogo. Ele me ensinou muito a compreender o jogo, a entender o jogo. Então esse cara também eu tiro o chapéu", completou Lisca.

A fala reacende um debate que acompanha a carreira de Guto há anos. Mesmo com títulos e um histórico sólido, o treinador costuma ser associado à Série B ou a projetos de reconstrução, dificilmente sendo cogitado para clubes de ponta. Lisca rejeitou essa leitura e defendeu que o colega tem muito mais preparo do que o mercado costuma reconhecer.

Para o torcedor do Inter, a entrevista também carrega um valor afetivo. Lisca e Guto fazem parte de um capítulo importante da história do clube, primeiro nas categorias de base e depois no profissional, em períodos de pressão e reconstrução. A declaração de Lisca funciona como uma homenagem — mas também como um recado ao futebol brasileiro sobre o custo de julgar profissionais pela aparência ou pelo apelido, em vez de pelo trabalho.

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