Laís Torres/CBFO economista, especialista em Banking e Gestão & Finanças do Esporte, Cesar Grafietti, explicou recentemente em entrevista a Mauro Cezar Pereira no programa Dividida, do UOL Esporte, qual é o conceito e como deverá funcionar o modelo brasileiro de fair play financeiro, projeto que ele trabalhou na elaboração.
Mecanismo implantado no futebol europeu visando equilibrar a saúde financeira dos clubes de futebol, o fair play financeiro rendeu punições a clubes como Chelsea, Manchester City e Milan, com multa, proibição de fazer novas transações e até exclusão de competições continentais. O sistema previsto para ser implantado também no Brasil causa confusões entre os torcedores no entendimento de como é o seu funcionamento.
– O clube tem que gastar só aquilo que pode, tem que gastar dentro do que arrecada, justamente para garantir que os pagamentos sejam feitos em dia, para que não haja atraso de salário, atraso de encargos, impostos e atrasos a outros clubes. Esses atrasos viram uma bola de neve e fazem com que a estrutura do futebol fique danificada. Então, o conceito e o modelo que será adotado no Brasil tem esta característica, é garantir que os clubes tenham, ao longo do tempo, um enquadramento entre o que recebem de receita e o que fazem de gastos basicamente com o salário, que é o grande gasto dos clubes – diz o economista.
– A gente vai ter ali uma série de índices e de itens de monitoramento que, ao longo do tempo, vão, combinados, criar uma nota e essa nota vai ser a nota do clube financeira. Então, alguns clubes que atingiram alguma nota de equilíbrio, estarão ok para tocar as suas atividades e aqueles que tiverem abaixo do equilíbrio, em um primeiro momento, terão que fazer um plano de ação para se enquadrar ao longo do tempo. Então eles vão ter que dizer assim: ‘em dois ou três anos, eu consigo chegar ao equilíbrio’, e eles serão monitorados para que a gente consiga garantir que o equilíbrio seja atingido – completa.
Grafietti explica que o fair play financeiro não puniria, por exemplo, o Flamengo ou o Palmeiras por investirem em contratações, exceto no caso de não ficar comprovado que os clubes tenham receitas compatíveis com os gastos.
– Na verdade, é: se você tem 500 de receita, você pode gastar 450. Você tem 100 de receita, você vai poder gastar 75, 80. É isso, é gastar dentro daquilo que você tem capacidade de pagar, de gerar de receita. Não é ‘vamos igualar todo mundo – vamos organizar o clube dentro das suas possibilidades, esse é o conceito por trás do fair play financeiro”, diz Grafietti.
Fair play financeiro no Brasil não prevê exclusão de competições
O economista afirma que no caso do futebol brasileiro as punições para os clubes que descumprirem o fair play financeiro deverão ser mais econômicas do que esportivas, seguindo uma linha que vem sendo adotada na Europa, com a proibição de contratações por um período ou sanções similares.
– A ideia do fair play, até seguindo um pouco do que a Europa vai começar a fazer agora, porque a Uefa está entrando numa discussão do fair play financeiro 2.0, vamos chamar assim, que é evitar penas, sanções esportivas e mirar em sanções econômicas. Porque, quando você tira um clube, por exemplo, da Champions League, você não está afetando o custo dele, você está afetando a receita, então, a chance de ele se recuperar mais rápido diminui – diz Grafietti.
– As sanções serão muito nessa linha, porque quando você proíbe a contratação, você limita o gasto com investimento e o gasto com salário, e aí, naturalmente, você vai colocando o clube no eixo, porque as receitas continuam, mas os gastos vão sendo enxugados, então, a ideia de sanções são sempre nessa linha e é o que está acontecendo já mudando no mundo agora, seja pela Fifa ou seja pela Uefa, são as sanções que mais fazem sentido neste momento – conclui.
Em 2020, após reuniões entre representantes da CBF, dos clubes brasileiros e da Ernst & Young, foi finalizado o modelo de fair play financeiro. As regras do modelo escolhido começam a ser utilizadas a partir deste ano na Série A (implementação dos primeiros itens) e na Série B (orientação).
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