Texto por Colaborador: A. Rother 12/08/2026 - 02:00

A Federação Gaúcha de Futebol atravessa um momento de forte turbulência política. De um lado, o ex-presidente Francisco Novelletto confirmou ao portal GZH que vai disputar a presidência da entidade, colocando-se como opositor da atual gestão. De outro, uma proposta de reforma no estatuto — que pode acabar com o limite de reeleições — já provocou reação dura até de dentro da própria federação, com direito a nota pública de um vice-presidente licenciado contra o comando de Luciano Hocsman.

Novelletto comandou a federação por 16 anos, período em que não havia limite de reeleições para o cargo. Essa regra mudou quando a CBF aderiu ao Profut, programa de renegociação de dívidas dos clubes. Agora, com os subsídios já quitados, a FGF pode voltar ao modelo antigo, sem restrição de mandatos — tema que será votado pelos clubes do estado dentro de duas semanas. O próprio Novelletto deixou a presidência em 2019 para assumir uma vice-presidência na CBF, e foi ele quem indicou Hocsman, até então seu vice, para sucedê-lo no comando da federação.

Na última sexta-feira (7), já sob assinatura de Hocsman, a FGF convocou uma assembleia para votar mudanças no estatuto, incluindo o fim do limite de reeleições. O encontro está marcado para o dia 25 de agosto. O cenário abre a possibilidade de uma eleição em 2027 com Hocsman e Novelletto em lados opostos.

Em entrevista ao programa Show dos Esportes, da Rádio Gaúcha, nesta terça-feira (12), Novelletto comentou os bastidores de sua relação com o atual presidente e opinou sobre a proposta que pretende eliminar o teto de reeleições na FGF. Segundo ele, Hocsman teria garantido, antes da convocação da assembleia, que não mexeria no estatuto.

"Nós tomamos um café e ele disse: 'tu vais de novo (concorrer), não vou mudar o estatuto nenhuma'. Depois eu mandei cinco, seis, sete mensagens e ele acabou não respondendo. Aí me deixou um pouco chateado, porque está gravado no meu celular", relatou o ex-presidente.

Novelletto classificou a proposta de mudança no estatuto como "um tiro no pé" e disse ter esperança de que Hocsman recue e retire o tema da pauta da assembleia. Vale lembrar que Hocsman foi vice e principal braço direito de Novelletto durante os 16 anos em que ele esteve à frente da FGF. "Ele vai compensar, ele é um bom sujeito. Sei lá a quem ele está ouvindo, mas não é coisa dele. Não é o Luciano, eu conheço ele", completou.

Ao confirmar com exclusividade à Zero Hora sua intenção de disputar a próxima eleição da federação, Novelletto também fez uma avaliação crítica do momento vivido pelo futebol gaúcho. "Há uma crise institucional da nossa querida federação gaúcha, uma crise de identidade. Isso não pega bem, e nós já não vivemos um bom momento no futebol. Eu nunca vi as torcidas do Grêmio e do Inter festejarem que o outro entrou no Z-4. É sinal de que nosso futebol realmente não anda nada bem", avaliou.

Vale lembrar que, além de estar à frente da FGF, Hocsman também ocupa cadeira de conselheiro no Grêmio — condição que tem sido alvo de críticas por parte de setores ligados ao Internacional, que veem no cargo duplo um motivo de desconfiança em relação à isenção do dirigente à frente da federação.

A proposta de reforma do estatuto, aliás, também gerou reação forte de dentro da própria FGF. José Olavo Bisol, vice-presidente licenciado da entidade, divulgou nota dura contra a gestão de Hocsman. "Em junho, ao me licenciar da Vice-Presidência, falei em uma gestão que não dialoga e decide sem transparência. O que está prestes a acontecer já era algo que me incomodava internamente, inclusive fiz diversos registros formais. O plano estava pronto, alterar o estatuto, se perpetuar no poder e amarrar o eleitorado", afirmou.

Entre os 137 artigos previstos na reforma que será votada em assembleia, chama atenção justamente a proposta de eliminar o limite de mandatos para a presidência: hoje, apenas uma reeleição é permitida, mas o novo texto passaria a autorizar a permanência no cargo sem prazo definido e sem qualquer limite.

Bisol também criticou outros pontos da reforma. "A mesma reforma tira dos clubes o direito de recorrer à Justiça em disputas com a Federação, tudo passa a ir para arbitragem privada no Rio de Janeiro. E a 'Comissão Eleitoral Independente' que vai cuidar da próxima eleição é nomeada pelo próprio presidente. Vale dizer que arbitragem tem custo elevado e inviabiliza qualquer tipo de debate pela avassaladora maioria dos filiados, que notadamente vivem em condições financeiras precárias", declarou.

Ele encerrou a nota com um alerta duro sobre os rumos da federação. "Sem limite de mandato. Sem Justiça. Sem eleição fiscalizada por alguém de fora. Isso não é reforma, é fechamento de uma instituição que deveria demonstrar o contrário, e eu nunca tive acesso à construção dessa minuta. Tomei conhecimento pela imprensa. Se os clubes não se posicionarem contra, penso que este ato pode estar decretando o fim do futebol gaúcho, que aqui, pra nós, já vem definhando há anos", concluiu Bisol.

A assembleia que vai votar as mudanças no estatuto da FGF está marcada para 25 de agosto, enquanto a próxima eleição da entidade segue prevista para 2027.

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