Texto por Colaborador: A. Rother 06/09/2026 - 01:20

O presidente do Santos, Marcelo Teixeira, destacou a movimentação dos clubes das Séries A e B do Campeonato Brasileiro junto ao Governo Federal em busca de alternativas para equacionar as dívidas do futebol brasileiro. Para o dirigente, o atual nível das taxas de juros tem agravado ainda mais a situação financeira das equipes.

Segundo Teixeira, a intenção é discutir um novo modelo de pagamento que reduza o peso dos juros e impeça que os passivos continuem crescendo de maneira acumulativa. O presidente do Santos explicou que, mesmo com um controle rigoroso das contas, as obrigações antigas acabam formando uma espécie de bola de neve.

“A cada período do exercício do Santos, durante esse período de dois anos da gestão, nós tivemos um aumento de R$ 250 milhões decorrente apenas dos impostos e da adesão ao Profut. Ou seja, por mais que você controle financeiramente a sua agremiação, você tem uma bola de neve correndo contra os clubes”, afirmou Marcelo Teixeira, em entrevista ao Rica Perrone, na última sexta-feira.

O dirigente também avaliou que, diante do tamanho das dívidas herdadas, os clubes acabam direcionando grande parte de suas receitas para manter as obrigações do dia a dia, sem conseguir reduzir de maneira significativa o passivo histórico.

“É impossível você zerar. Qual a lógica do futebol brasileiro hoje? Você negocia jogadores para você pagar aquilo que é uma rotina diária (impostos, folha de pagamento, direitos de imagem), mas os valores acabam não sendo suficientes, porque as dívidas passadas são maiores e recorrentes, porque a cada período ou a cada mês há um aumento substancial”, explicou.

Teixeira ainda ressaltou que os encargos relacionados às dívidas dos clubes são superiores aos de empréstimos bancários convencionais. “Não são juros normais ou correções de empréstimo bancários, são ainda maiores, porque foram feitos no passado, exclusivamente, para clubes de futebol”, completou.

O presidente santista também citou o esforço feito pelo clube para quitar compromissos deixados por administrações anteriores. Em 2024, quando o Santos disputou a Série B do Campeonato Brasileiro, foram desembolsados R$ 126 milhões para o pagamento de dívidas envolvendo ex-jogadores, treinadores e transfer bans.

Outro ponto abordado por Marcelo Teixeira foi a implementação do Fair Play Financeiro pela CBF, mecanismo que, na visão do dirigente, pode contribuir para melhorar a saúde financeira das instituições. “Acredito que esses mecanismos, incluindo a ANRESF (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol), poderão controlar mais a saúde dos clubes, desde que os gestores administrem seus gastos nos exercícios e não tenham dívidas passadas que sobrecarreguem as despesas”, finalizou.

A discussão também ganhou espaço no Governo Federal. No mês passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que havia sugerido à Caixa Econômica Federal a criação de um programa para renegociar as dívidas dos clubes de futebol, inspirado no modelo do Desenrola, utilizado pelo governo para facilitar acordos entre devedores e credores.

A declaração foi dada em entrevista à Record exibida no domingo, dia 23. Lula, entretanto, não apresentou regras, estimativa de custos, fonte de recursos ou critérios para definir quais clubes poderiam participar da eventual iniciativa.

“Vamos pensar em fazer um Desenrola para os clubes de futebol, porque estão todos quebrados”, afirmou o presidente, ao relatar a conversa com a Caixa.

Até o momento, não houve anúncio público do banco sobre a elaboração do programa. A proposta permanece no campo das sugestões e não possui prazo definido para ser apresentada. O modelo do Desenrola foi criado para facilitar a renegociação de dívidas vencidas, normalmente por meio de descontos, parcelamentos e novas condições de pagamento.

Lula também não esclareceu se uma eventual versão voltada ao futebol teria recursos públicos, garantias do governo ou apenas a participação da Caixa como intermediária nas negociações com os credores. Também não informou se a iniciativa contemplaria associações esportivas, clubes constituídos como Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) ou os dois modelos.

Sem um desenho definido, ainda não é possível estimar o impacto financeiro que uma eventual medida teria para o banco público.

Durante a entrevista, Lula atribuiu parte do elevado endividamento dos clubes à má administração e criticou o pagamento de salários que, segundo ele, não condizem com a realidade econômica brasileira. O presidente também questionou a dependência das equipes em relação a patrocinadores ligados a casas de apostas esportivas e plataformas de conteúdo adulto, embora não tenha apresentado uma proposta para modificar as regras desses contratos.

O patrocínio de empresas de apostas ganhou espaço nas principais competições nacionais e se tornou uma fonte importante de receita para diversos clubes. A discussão sobre um programa de renegociação ocorre em um cenário no qual o futebol brasileiro movimenta valores elevados, mas também convive com grandes dívidas tributárias, bancárias, trabalhistas e comerciais.

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