Mourão Panda / AméricaErrar uma vez, é humano, errar duas vezes, acontece, agora três, já é burrice ou incompetência. Não há mais como defender absolutamente uma gestão que, em cada passo dado, entrega sinais claros de que não possui nenhuma noção do que está fazendo no Beira-Rio.
O momento é tão vergonhoso que apenas a ironia poderá nos ajudar a diminuir a irritação de mais uma atuação risível em 2023. O plano da gestão era o de "revolucionar" o futebol colorado, e parece inegável que estão no caminho certo: o SCI atualmente não apresenta qualquer coisa que se possa denominar de "futebol", mas um esporte em que a bola deveria ser quadrada, talvez triangular. Como explicar tamanha façanha após um fim de 2022 razoável, para dizer o mínimo? Vamos lá.
O Somos Colorados - como pequeno integrante da sociedade alvirrubra - raramente entrou na esfera das soluções fáceis vendidas anos atrás. Bastava se desfazer do Edenilson, Cuesta, Dourado, Patrick, e trazer jogadores com estilo X ou Y, feito isso, tiraremos os "perdedores" com suas fraquezas individuais e, consequentemente, voltaremos a vencer. A ideia, porém, é simplesmente absurda, pois inverte a seta do caminho lógico de qualquer trabalho consistente. Como esporte coletivo que é e sempre será, as equipes se sustentam graças aos detalhes que vão muito além das quatro linhas ou dos XI escolhidos que entram em campo. Quando invertemos essa caminhada básica, comete-se o erro primordial de achar que as soluções simples resolverão alguma coisa. Resolveram? Apenas pioraram.
Conceituando as linhas substanciais, precisamos analisar a realidade do Internacional. Com um orçamento atualmente de nível médio no Brasil, apenas com ideias coletivas muito bem consolidadas pode-se imaginar alguma chance de briga pelos títulos. O conceito está claro, mas vamos aos exemplo: Fortaleza, com jogadores nada mais do que intermediários, faz jus ao pensamento comunitário seja com Titi, Dudu, Zé Welison, ou uma legião de jogadores nota 5 para baixo. Assim como o Atlético-PR, que com muito menos, sempre faz muito mais. O que está por trás desses dois casos? Planejamento a longo prazo com premissas corretas e consciência nas ações, tendo em vista onde elas podem te levar.
Como essas equipes planejam suas temporadas? usam os estaduais para aprimorar a parte física, tática, dão espaço aos jogadores oriundos da base e poupam todo o elenco nos momentos cruciais da temporada. Qualquer profissional da área da preparação física do futebol sabe disso: se você não tem um elenco de bom nível com 22 ou 30 jogadores, é preciso poupar suas melhores peças no momento de pico, porque inevitavelmente esses atletas vão se desgastar a um ponto em que não renderão de maneira minimamente satisfatória, passando a trabalhar taticamente errado e, se insistir nesse caminho, chegam as lesões. Vejam, os torcedores comuns costumam reclamar disso, mas raramente se dão ao trabalho de abrir os estudos sérios para saírem do campo opinativo e entrarem no argumentativo. Nesse aspecto, cabe somente a direção, que teoricamente cumpre o planejamento profissional, estar ciente dessas coisas básicas. Dias atrás o Fortaleza jogou com 8 reservas na Arena, o CAP totalmente reserva contra o Inter, após 30 minutos de pressão gaúcha, ambos bateram taticamente a dupla GreNal - já completamente disfuncionais mesmo com seus titulares. Esse tipo de erro é imensamente pior do que contratar um ou dois jogadores errados, pois é afundar completamente premissas básicas para o sucesso possível, não certo (estamos trabalhando com probabilidades, não certezas). Vejam que todas as vezes que o Inter realizou campanhas satisfatórias na Série A ocorreram em momentos quando afundamos em competições eliminatórias semanas antes. Adivinhem o que poderá acontecer este ano? Obviamente isso não substitui o trabalho tático, físico e diário, mas é um potencial que pode ser esvaziado ou aumentado. Atualmente, não temos nenhum.
Adicionem a este erro básico, outro equívoco fundamental, o de culpar meros jogadores pela falta de títulos e se desfazendo de peças com vasta experiência, gabarito, que mesmo não rendendo o esperado (já que o mesmo esquema acima é posto de maneira incorreta nos últimos anos, afundando o aspecto coletivo) foram colocados na rua, deixando um elenco com real estofo a meros 11 ou 13 jogadores. No início do ano comentamos exatamente isso: como explicar que um time com a mesma base titular não rende mais nada após dois meses de diferença? Basta diminuir a qualidade dos treinos, vestiário, concorrência interna e você DESMANCHA o trabalho competitivo do dia a dia. Agora, é fácil culpar apenas o Mano - que também tem sua parcela de culpa - mas imagine um treino do SCI: Alan Patrick chega para trabalhar e enfrenta um time reserva COMPLETO de garotos, quase juvenis, que não disputaram nem CINCO jogos completos como titular. Isso sem falar do vestiário, Alan Patrick, Wanderson, todos os jogadores que ficaram do ano passado tinham sua titularidade garantida, um erro BÁSICO, INFANTIL, AMADOR. Nós até chegamos a elogiar algumas saídas, mas jamais imaginaríamos que não viria nenhum jogador minimamente competitivo no lugar dos que saíram.
Percebam que, como de costume, apontamos erros estruturais, fundantes que são premissas básicas. Não apontamos jogadores, pois 11 jogadores não significam um time, uma equipe vai muito além de XI peças dispostas. O que não se vê por trás dos bastidores, como o que foi apontado, é que sustenta ou não todas essas conjecturas. Assim, inverter a seta, apontando que basta trocar PEÇAS quando o macro é repetidamente mal feito, é como tirar água do oceano com balde, e lá na frente o tombo será muito maior.
Claro que haveriam muitas coisas a mais para apontar, mas a ideia aqui é elencar conceitos que se possam trabalhar visando construir, não meramente crucificar nomes que de maneira conjectural não funcionam, algo muito mais negativo do qeu positivo. Isso qualquer um faz e é feito com altos e baixos em todoas as fases. Três meses atrás Alemão, De Pena e Vitão eram estrelas, agora viraram perebas, como quase todo o elenco. Esse tipo de leitura é rasa e não resolve absolutamente nada. Se não olharmos para as partes chaves e efetivamente essenciais, seguiremos trocando peças sem nenhuma ideia para amparar.
Infelizmente, porém, o projeto Íbis dos Pampas 2024 já está a todo vapor, tendo em vista que estamos somente colhendo os frutos desses erros crassos decididos meses atrás, que não tem mais volta e encontram-se no meio do processo. O Internacional quer ser campeão mas não faz nenhuma ideia de como. Assim, dá um passo sem querer para frente e três para trás. Quando estiver fora da Libertadores e Copa do Brasil, talvez os vexames diminuam e com alguns bons reforços, quiçá façam alguns imaginar que "acertaram a mão de novo", todavia, como já observado em todas temporadas, é por puro chute, ou obra da própria incompetência. O Internacional é um clube competitivo por si só mas é preciso ser muito amador para conseguir somar tantos vexames em tão pouco tempo.
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